PENSANDO

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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

BAILARINOS NÃO CANTAM

Foi em 1986, pode ter sido em outro ano, mas algo me diz que foi em Paraty - com certeza, isso eu tenho - em Maio de 1986 um certo festival de música sacra. Não sei se ainda existe, se conseguiram preservar aquela maravilhosa ideia  que me contou o maestro Jonas Christensen, foi do Papa João Paulo II, que a ele atribuiu de fazer com que o festival viesse a existir em alguma cidade histórica brasileira.

Mas o gran finale do festival foi na igreja matriz de Paraty e um dos grupos corais que se apresentou marcou-me por longo tempo pela surrealidade e comicidade da situação.

Formado por pessoas  com um pouco mais de idade - diria entre 35 e 50 anos - e com uma certa vontade em inovar ou se destacar fizeram algo bem diferente mesmo e marcante. Foi assim: o coral entrava na igreja cantando, percorrendo o mesmo caminho que percorre uma noiva, entravam pela porta principal e iam cantando até chegar ao altar onde havia sido arranjado um grande palco. Não lembro o nome do coral, de onde era e nem qual era a música que cantavam, e prá dizer bem a verdade até  a agora pouco, em meu café da manhã, eu nem lembrava mais da passagem. Mas alem de entrar cantando eles tinham uma formação curiosa, entravam em duas filas indianas e caminhavam dando um passo para o lado e paravam davam um outro passo para o lado oposto ao anterior e paravam novamente. Assim as duas colunas iam balançando lentamente de um lado para o outro, enquanto eles cantavam a todo pulmão e olhavam fixamente para frente. Honestamente, pô, como eu vou escrever uma coisa dessas a seguir?... era patético... tudo era patético: a roupa, as caras, a música, a pretensão inovadora, a coreografia medíocre.
Mas nada desagrada a todos, algumas pessoas - falarei no final do texto sobre esse tipo de pessoa - choravam emocionadas diante da tão, tão, tão... inesperada performance do grupo vocal.

Brasileiro é ruim de numero, isso é um fato que se quiserem eu discorro por dias seguidos com milhões de exemplos até convence-los. Aqui ninguém sabe nada de número, dimensão, proporção ou coisas assim... colocou número na parada dá merda. Um arquiteta prá quem fiz um trabalho recentemente não sabia o que era uma polegada... vi engenheiros da CESP de Marília se embananando na hora de calcular quantos mourões seriam necessários prá construir um alambrado, e assim vai... ora, se um cara é maestro não tem a obrigação de saber nada mais além de música, código de transito e primeiros socorros para engasgados, certo? Mas e quanto ao corredor da igreja em questão versus a velocidade do avanço do grupo vocal divido pelo tempo da música elevado à raiz quadrada do número de expectadores que desejavam que o coral chegasse junto ao palco no finalzinho da música para aplaudi-los - ou vaia-los, conforme o gosto, eih?
Simples assim, na metade do corredor todo mundo notou que a música ia acabar primeiro. Ninguém lá dentro ignorava, agora pela mais pura intuição que aquilo não ia dar certo. O grupo estava lento demais na caminhada? O corredor era muito curto? A música era breve demais?
Todos sofremos, aquele sofrimento pelo constrangimento alheio, pela mediocridade matemática do maestro ou de quem quer que seja que tenha tido a infeliz ideia da coreografia ou que não tenha ensaiado antes ou ao menos notado que a igreja era grande para cacete. Eu cagava de rir da cara de agonia de todos, mas era um rir nervoso, desconfortável e doloroso. O que já era patético, fico hiper patético, a apresentação virou um suplicio, os passos começaram a ficar longos e a coisa piorou mais ainda, porque tudo se desacertou e alguns puristas filhos das putas resolveram não acelerar o passo e o coral rachou ao meio, virou uma bosta.
Nada mais casava com nada... o que salvaria aquela apresentação?
Acho que nem vou contar, porque ninguém vai acreditar... o Batman. Na verdade não foi o Batman, foi um primo distante dele... um morcego bem grande começou a voar dentro da igreja. Passou a dar rasantes sobre todos. Tem gente que nem liga, tem gente que se caga de medo, então a igreja - que estava lotada - passou a ter um movimento ondulante, tipo holla em estádio mexicano, era bonito de ver e quem conhece morcego sabe que ele fica ali fazendo o mesmo itinerário de forma meio circular por um bom tempo, com isso tinha uma parte da igreja que se divertia e outra que sofria e no meio o coral na maior cara de pau escorria em direção ao altar e se safava da merda que fizeram.
No final grande aplauso para o morcego... e o limbo para o coral que ao deixar de ser apenas coral mergulhou num mundo que não era o seu... mergulhou por falta de humildade em apenas cantar bem... queria arrasar, queria aparecer mais que os demais. Em algumas situações devemos aceitar ser apenas figurantes, na maioria devemos ser apenas participantes e não estrelas. Talvez a maioria dos velhotes daquele coral hoje se divertem em bailes da terceira idade, é isso ai, dançaram lá na igreja e descobriram que dançar é uma coisa legal, mas tem que ter um coreografia  e um sincronia... tem também que conhecer e dominar o espaço e principalmente saber que: bailarinos não cantam.

Nota.: Agora falarei sobre um tipo de pessoa, dentro de meu eterno desfiar sobre a mediocridade humana.
Quando eu fazia teatro amador ia sempre com o pessoal do grupo ver uns espetáculos de teatro gratuitos nas sextas ou sábados à meia-noite. Era a apresentação prá classe... eu não era da classe mas ninguém queria saber sobre isso. Um dia fomos ver "Bonitinha mas ordinária" de Nelson Rodrigues na montagem profissional mais amadora que já vi na vida, tanto que ao final, os colegas da classe artística - incluindo Antonio Fagundes, presente na ocasião - aplaudiram sentados, eu nunca tinha visto nada assim e não voltaria a ver um artista ser aplaudido sentado. Mas antes da peça os atores abriam um  vão da cortina e saiam para aquecer o público contando umas piadas. Aquilo já era uma promessa ou um presságio. Uma piada era pior que a outra. Mas bem na minha frente - não vou dizer que era um viado afetadíssimo prá não me enquadrar como homofóbico, mas foda-se era um viado afetadíssimo  rasgava-se de rir... problema dele se ele achava engraçado, mas ele se esticava a ponto de sua cabeça chegar bem perto de mim e numa das esticadas de braços, ah, sim, ele esticava os braços prá conseguir expressar toda a explosão de riso que as inodoras piadas lhe causavam... , ele me acertou o rosto... passei a esperar com grande espectativa o final de cada piada a fim de me abaixar e me proteger da bicha. Mas ali notei o que quero definir, uma pessoa desenquadrada, fora do clima do momento, uma gargalhada no funeral, uma insistência inoportuna, chorar na hora errada, chorar de coisas piegas, mostrar uma falsa sensibilidade prá aparecer e aparecer muito... não suporto, já fui assim também, já tive minhas necessidades de luz, mas estou melhorando... mas aquele tipo que sai da condição de massa prá chamar demais, a atenção de ultima hora, na hora mais oportuna, na hora que vê que há uma brecha, é o cara que atravessa pelado o campo de futebol na hora do jogo, um babaca, o mesmo que abraça o candidato a prefeito na rua e diz: vamos juntos até a vitória... acho que defini, né?


sábado, 24 de setembro de 2011

O PÚBLICO NÃO VIRÁ.

Percebe o valor do texto  e se emociona com isso, vê que aquilo dá uma encenação, que tocará o coração das pessoas. Que magnifica ideia, tão completa, tão atual, alguém ira mudar algo em sua vida quando ver esta ideia num palco. Estuda o texto, decora, marca, ensaia a voz, o ar o tempo, o tempo em que deve haver apenas o silêncio, momento em que todos deverão apenas refletir sobre o que foi ouvido, algum filho da puta ira tossir, uma cadeira ira ranger... não importa o silêncio entre as frases ira fazer crescer a importância e criar no público a suspensão da respiração. Pânico, a próxima frase não vem, terá o ator esquecido o texto?
Pensa e desenha os figurinos, projeta os cenários, define as luzes e escolhe as músicas.
Varre o palco, faz alongamento respira a eterna poeira em suspensão.
Ensaia, costura, serra madeira e pinta lona, desenha cartaz, manda prá grafica, pede desconto encurta o prazo. Some da praça. ninguém mais te acha. Entrevado, ensaiando, buscando o personagem, acha, não, não é isso, acha outro este pode ser... é este, achei este é o tom, o ar, a cara ensaia a maquiagem, se emociona com a trilha sonora, que puta trilha sonora, nunca se ouviu nada assim antes nos palcos, isso vai fazer todo mundo chorar. Monta o cenário, afina as luzes, acaba os figurinos, consegue emprestado os últimos objetos para compor o cenário, cuidado heim, quero de volta não vá quebrar, não deixe que roubem, era de minha avó... O cartaz saiu errado, puta que o pariu essas gráficas cobram caro e não acertam nunca, agora foda-se... ensaio final, tá uma bosta, ralentado, tem cena fora de ordem, tira esta estica a outra, não cortem aquela minha fala, eu só tinha ela... alguém esquece o texto, a luz estoura e o cenário esta capenga, mais cor, mais cor, menos agora, no ponto. tá fora da luz, a musica entra agora, não esta, certo esta agora. Convida todo mundo, dor de barriga, tudo pronto, cheguem 5 horas antes, não melhor chegar 6 horas antes, não dá mais tempo para nada, agora é tudo ou nada... corre para o banheiro, cade minha sombra, não esquece a flor, cacete esqueci de trazer a flor, corre arranja flor.Primeiro sinal, segundo sinal, merda prá você, abre a cortina, a luz vem fininha crescendo, a música vem subindo, uma leve tremedeira nos joelhos, olha direito, não acredita, olha novamente, ninguém na plateia.
Cadê o público.
Chove muito, muito, chove de balde, ninguém quis sair de casa.
Hoje não vai haver espetáculo.



 PS.: No teatro, antes de entrar em cena, costuma-se dizer uns aos outros: - Merda prá você!
Este habito vem do tempo em que o público ia ao teatro de carruagem e a rua em frente ao teatro ficava cheia de bosta de cavalo quando a peça era um sucesso.






segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O CINEMA VAI AO TEATRO

Nosso grupo que se reúne prá ver filmes variou neste final de semana e fomos ao teatro.
Da outra vez fomos ver a Glória Menezes em "Ensina-me a viver" e gostamos, mas gostamos pouquinho.
Neste Sábado fomos ver o monólogo "Doido" de/e com Elias Andreato e daí gostamos bastantão.
Dá um gostinho daquele tempo que a gente era mais ingênuo, daquele tempo em que ainda ouvíamos e suspirávamos com poesia. O texto flui, flui muito bem, o modelo da montagem é corajoso, pois ele permanece a peça toda sentado na cadeira e nem assim há um segundo sequer de monotonia.
O ator é uma simpatia e pura gentileza, pena não ter aceito prá jantar com a gente na casa de uma amiga, mas nós somos entrões demais, mas ele aceitaria não estivesse de carona e tão longe de casa.
O ator é ótimo, o texto emociona, a generosidade de vir tão longe trazer seu trabalho nos deixou muito felizes, e estou aqui recomendando. Se você é de São Paulo ele se apresenta num circuito dos CEU da prefeitura de São Paulo, procure se informar, ou pode ser que qualquer hora ele passe por sua cidade.