PENSANDO

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sexta-feira, 3 de junho de 2011

LAÇOS



Vimos o filme A TROCA dirigido pelo Clint Eastwood, com Angelina Jolie e John Malkovich. Muito bom, como tudo que o Clint dirige; relembre Sobre meninos e lobos, Meninos não choram e Menina de ouro, só agora escrevendo isto me dei conta da recorrência da palavra menino(a), e sobre o tema, pois A Troca trata da história de um menino que desaparece numa ação criminosa.
Clint tem a grande habilidade de contar histórias pessoais dramáticas. Ele sabe mostrar com clareza qual o sentimento principal que esta envolvido e movimentando a trama, e quais os sentimentos secundários que em seu respectivo momento afloram na trama prá fazer-nos lembrar que tal sentimento existe e que o termo é amplo, cheio de caminhos possíveis e que grosso modo todos vivemos ou viveremos, quase todos eles em intensidades diferenciadas em algum momento de nossas vidas.
Saber contar uma história é algo raro, tudo caminha de forma a parecer tão somente o relato real de um momento em que a policia de Los Angeles era absolutamente incompetente e corrupta, que uma criança some e outra é devolvida em seu lugar e a mãe é obrigada pela policia a aceitar a postiça como sendo sua. Mas lá pelas tantas o filme mostra uma violência muito bruta, crianças mortas a machadadas e assassinos com cara de vitima.
Meio lugar comum o final ao recolocar as coisas em seus devidos lugares pelas mão da justiça só atingida pela perseverança de um pastor obstinado e forte, mas o filme relata uma história real e o final não poderia ser escolhido, apenas contado.
Um grande filme, como tantos outros do Clint, um ator tremendamente canastrão no belo filme do Sergio Leone, O feio, o bruto e o bom do qual vi caquinhos esta semana; quem diria que aquele ator de quinta ou sétima categoria se tornaria um dos melhores diretores de todos os tempos.
Vamos ao laço.
Mães não suportam a perda dos filhos (Dhãããã, descobri a América). Não importa o tipo de perda, por separação física temporária, por perda de controle, para a nora ou genro, se ficante – para aquele moça, biscate que não vale nada e que vai tirar tudo dele ou, para uma deficiência ou morte.
São capazes de coisas impossíveis para mantê-los vivos e próximos. Mas por que?
Por que uma pessoa se apega a outra de forma tão forte, com opção até de perder a vida pela outra?
Resposta: Por covardia e para validar sua própria existência ou seja: por egoísmo (pausa para desviar das pedradas-que atrevimento).
Justificativas: Estou lendo um livro sobre psicanálise e nalgumas passagens discordo, em outras me vejo e em muitas me espanto, choco e derrubo-me na real. A gravidez e a maternidade alienam a mãe, coberta de glórias, numa única razão de existir, a saber: cuidar do bebê. A mulher nesta fase não precisa viver para o mundo, pode viver para si e para seu bebê, e quanto mais intensamente fizer isto, mas elogios e admiração terá. Portanto é uma fuga de tudo, inclusive de enfrentar a própria vida, é talvez, a única oportunidade que um ser tem de tirar férias de todas as suas obrigações, problemas e relações afetivas (mas que cara invejoso esse Vitorio). Nessa postura de avestruz a mãe acovarda-se diante da vida e enfia sua cabeça na vida e na proteção de seu precioso bebê. Mas se o bebê se torna uma criança crescida, um adolescente e depois um jovem apto a formar sua própria família, fica a mãe em má situação, a de ter que enfrentar a vida com todas as suas agruras, mesmo que em alguns casos –muito específicos – lhe falte coragem. Seria então na verdade o amor materno pura covardia em: enfrentar a vida, participar da vida sexual com o marido - descartado após a fecundação e lembrado apenas na hora de matar baratas, pagar as contas e trocar o gás (mas que coisa de machão-porco chauvinista, -Vitorio, você esta passando dos limites menino.) –
cuidar de uma carreira e dar ordem ao caos familiar.
Sei não, mas ta me parecendo que sim. Que a maternidade é na verdade uma zona de conforto onde a mãe esta mais empenhada em obstruir a rotas de fuga dos filhos em proveito próprio que em demonstrar o amor incondicional.
Descobri o significado do termo amor incondicional apenas depois de ter sido pai, por isso não concordo muito com o que li e relatei acima, tem umas camadas a mais de sentimento nisso tudo que não seria possível esgotar num texto como este.
Mas no filme, a mãe solitária luta para reaver a cria, para derramar sobre ele amor, proteção, significados para que cresça, faça história e retorne um dia em forma de gratidão.
Não cheguei ainda a partes do livro que certamente esquartejarão também esta parte da maternidade.
Mas a psicanálise põe luz em algumas coisas muito delicadas, com faz o Clint. Tremei.

Um comentário:

Mary Joe disse...

Vitório, estava aqui lendo seu texto e refletindo... em tempo: os filmes do Clint Eastwood me fazem sofrer muito, então os evito.

Mas quero tocar na parte que mais gostei do texto: a questão da maternidade enquanto fuga, por assim dizer.
Sabe, vou te falar de cadeira, pois como vc bem sabe, tenho três pequenas crias.
E naõ existe sensação mais acridoce do que a de ser mãe.
Quando eles nascem, vc regride. (O texto que vc citou coloca isso como fuga), mas no meu entendimento o que acontece é que para nos comunicar com essa forminha de vida ainda tão primitiva, a mãe regride e se torna quase infantil também. E já viu criança tomar conta da própria vida? Não é bem assim que funciona né?
Entaõ, vivemos por algum tempo nesse mundo limítrofe, onde o bebê nos provê e nos suga ao mesmo tempo... nas noites maldormidas, e na ausência total de diferenciação... sim, porque por algum tempo naõ sabemos nem mesmo onde acaba o bebê e onde começamos nós... é como se a gente continuasse ainda ligado, igual na gravidez.
E aí, o marido tem que ser um puta companheiro para entender que é fase, que vai passar. E entrar no jogo...Graças a Deus, o meu chegava a ser mais maternal que eu até, em determinados momentos (como levantar a noite por exemplo).

Mas acho que a partir do momento em que o bebê começa a fazer força para descer do colo e ir para o chão, começa o nosso desgarramento in-voluntário desse papel de provedora absoluta. E é natural que seja assim.
A primeira vez que saí para trabalhar e deixei minha filha aos seis meses de idade, achei que fosse morrer de dor e culpa.
Mas ela ficou bem e eu percebi que adorava sair e ver as coisas de novo.
Que aquele mundinho é bom, mas naõ é completo.

E é essa completude que buscamos vida afora, Vitório... nas relações, na satisfação com o trabalho. Na vida, enfim.
A maternidade não nos preenche 100%, como nada isoladamente o faz.
E isso é bom para nossos filhos, porque se assim fosse, eles coitados, teriam esse papel horroroso de nos prover a completude por toda a vida. Pobres filhos, né?

Ainda não cheguei na parte da maternidade que a cria segue a própria vida. Confesso que sou ambivalente em relação a isso... se por um lado quero vê-las batendo as asas. Por outro temo o ninho vazio.

Mas tenho certeza que acharei algo que me faça sentir útil e novamente me sinta preenchida.

A vida é assim. E nada como seguir o fluxo da vida para ver o que tem na próxima esquina né?

Adoro vc, sabia?
Beijokas
Mary