PENSANDO

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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

PAVOR



É o que paralisa e faz andar para trás.
Quando foi a ultima vez que senti pavor?
Lembro de algumas vezes que senti pavor.
Quando eu era criança vimos da varanda da casa de minha avó um transformador de eletricidade explodir num poste. Era noite e o efeito ganhou grandes proporções. Era deslumbrante, mas minhas pernas ficaram moles e eu tremia muito, quando voltamos para cama foi difícil dormir.
Outro pavor foi pedir uma menina por quem eu estava apaixonado em namoro, eu não tinha mais escapatória, minha consciência e meu desejo impunham que naquele dia ou eu pedia ela em namoro ou deveria me matar. Tudo era fatal na adolescência, mas nem me matei, nem tive coragem de falar com ela, fiz mais um dos inúmeros papéis de idiota que faria ao longo da vida com as mulheres, até chegar um dia ao ponto de não ter mais medo de quase nada. Mas quando cheguei ao ponto, senti até uma certa vergonha de ter demorado tanto tempo para ter constatado o obvio, que a vida é apenas uma aventura, e que quem não se aventura não esta de fato vivendo.
Eu li, li muito na vida, e não aprendi nada com o que li.
Aprendi com as experiências que troquei com as pessoas.
Por isso depois de um tempo passei a ler menos e a conversar mais e depois de mais algum tempo passei a falar menos e a ouvir mais, e acho que estou caminhando para uma etapa em que vou sou ouvir e responder sem pronunciar. Vai ser o máximo responder com olhares, caretas e pequenos movimentos musculares do rosto numa linguagem puramente não verbal e com isso apavorar os outros.
E outro único episódio apavorante foi no mar onde uma imbecilidade completa me fez embarcar numa traineira de pescadores sem levar em consideração uma montanha de sinais que evidenciavam que todos ali iam se dar mal. Felizmente o mal estar era tão grande que eu já não dava mais valor à vida e até torcia para morrer logo, mas adivinhem... Não morri.
Poucas horas depois estava eu de volta a terra firme só que mais cambaleante que um ébrio.
Para nunca mais tirar os pés da terra.
Mas concluo que o pior pavor é o que sentimos diante das pessoas.
Já passamos por uma situação de extrema violência em que eu surpreendentemente não me apavorei nem senti medo, hoje me apavoro de lembrar que eu havia tomado a decisão de morrer naquele dia caso algum dos bandidos encostasse em minha filha ou mulher. Mas os bandidos sim estavam apavorados e sentiram o meu cheiro da morte, disto estou certo. É uma coisa indescritível, nós não podíamos olhá-los sob pena de sermos mortos (não iam matar ninguém, eram uns cagões que só entraram onde estávamos por conta de se drogarem, e não o faria de cara limpa), mas eles me olhavam, mas não diretamente, havia um receio deles, havia algo estranho. Fui a única pessoa a quem eles não dirigiam a palavra e nem chegavam perto, eu internamente pensava que a minha imagem era a de um enorme demônio vermelho e desproporcional, com chifres retorcidos e uns olhos esbugalhados enormes encarando-os com um sorriso apavorante que dizia sem pronunciar palavras: Venham para perto de mim para que eu os tome para mim, venham.
E eles, tenho certeza, viam isso que eu apenas imaginava em minha cabeça, essa era a forma que eu tinha naquele momento, eu era apavorante. A minha certeza gerava neles o pavor.
Eles andavam para trás.
Mas o pavor que me inspirou na escrever foi o pavor da escolha.
Escolher com seriedade uma pessoa é apavorante.
Saber que você vai causar algo na vida de uma pessoa para sempre, ou quase, é algo que mete muito medo. Em parte porque não nos preparamos nunca para as escolhas afetivas, e porque a escolha representa uma renuncia às outras opções possíveis.
Já imaginou você escolher o sabor errado de sorvete, ver todo mundo chupando um sabor diferente do seu e adorando e você odiando o que escolheu. É apavorante.

3 comentários:

Mary Joe disse...

Vitorio, adorei seu texto! Isso naõ é exatamente uma novidade, rsrsrs. Vc sabe que gosto muito da forma como vc escreve...

Mas é que na verdade, isso vai de encontro a algo bem presente no meu momento: a luta contra o medo.
Percebi que o medo é paralisante, então, atualmente se há algo que temo, é de ter medo... o resto, a gente enfrenta.

Já tive esse pavor meio misturado com a certeza de morte iminente quando fui assaltada e colocaram um punhal no meu pescoço... mas acho que naquele momento a morte não me quis e tudo acabou bem...

E para finalizar, o sorvete errado sempre pode ser dado ao menino pobrezinho que está passando no momento...
Beijokas
Mary Joe

Andréa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Andréa disse...

Em relação ao medo das escolhas afetivas eu acredito que ele pode tb estar associado às experiências anteriores,além da, possibilidade de perder a liberdade e autonomia. Percebo muito isso em conversas com a "turminha dos descasados". Sou uma e já me apavorei com um simples convite de um churrasco em família.

Tks pelo post, bom estar aqui!

Bjo