PENSANDO

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sexta-feira, 12 de março de 2010

ZERAR OU FIXAR.

No final dos anos 80 uma colega de serviço passou a se aproximar de mim para que eu service de ponte entre ela e um outro colega meu por quem ela mais tarde me diria era apaixonada.
Quando o esquema todo ficou claro eu disse a ela duas coisas: uma, que ela estava disputando com um monte de outras pessoas que também queriam o cara e outra que ela também era alvo de uma outra pessoa que gostava dela e nunca havia se declarado.
Ela ouviu a primeira e me pediu ajuda e esqueceu a segunda parte.
Acabamos com isso ficando mais amigos, ou mais do que colegas e um dia conversamos longamente sobre a questão dos por quês da história toda.
Ele, na opinião dela, era único, bem vestido, firme nas colocações, distante com um ar de mistério, bonito ( não era mesmo ), atrevido, engraçado e um monte de outras coisas que na verdade eram pura fantasia da cabeça dela. O cara era casca quando tinha que ser, as roupas estavam meio fora de tamanho e moda, as piadas eram grosseiras e a tal distância era a mais pura arrogância. Fiz ela ver tudo isso mas ela não viu, apaixonada e cega seguiu firme e forte em seu plano de conqusita-lo.
Passei a cuidar da outra parte, falei para o colega que gostava dela prá atacar porque eu achava que ele teria alguma chance se ocupace o espaço afetivo não correspondido. Deu parcialmente certo, porque saimos todos juntos e depois eles sairam juntos algumas vezes. Mas a coisa não firmou, o cara se desencantou quando a conheceu mais de perto e viu que não era a pessoa que ele queria para ele. Saiu e sentiu que era chata. Ela como não teve uma oportunidade de se tornar mais próxima de seu objeto de desejo continuou com a imagem intacta na cabeça.
Mas eis que surje um outro pretendente para ela e em poucos meses estão casados.
Fiquei meio distante neste período, mas para minha surpresa depois de alguns poucos meses de casada como ela continuasse a trabalhar comigo perguntei como estava a vida nova e ela me disse que estava bem, mas que continuava apaixonada pelo outro.
Quase caindo da cadeira e não escondendo minha indignação para com ela, perguntei como ela tinha coragem de se meter numa situação daquela? Resposta idiota para uma preocupação inconveniente e idiota minha também. Era assim porque era assim foi a resposta dela. E mais agora ela se achava mais a vontade para atirar-se sobre ele e trair o marido. Ela havia ganho uma desenvoltura notável com o casamento. Passei a falar menos com ela e a me policiar para não fazer parte de mais nada já que as regras agora eram outras e bem claras.
Com isso não tenho um final para contar-lhes, mas tenho comentários a fazer.
Não foi o primeiro caso de forte fixação que conheci. Houve um caso muito mais doentio de um colega em outra empresa que não conseguindo conquistar a garota de seus sonhos, também colega de trabalho, achou entre as outras colegas que tinhamos, uma, que por sinal era uma menina linda e de forte personalidade embora muito doce, que tinha algumas semelhanças fisicas e nenhuma outra semelhança de personalidade ou comportamento com a amada original.
Mas ele não viu nada disso e se apaixonou pela clone sem no entanto deixar de ser apaixonado pela outra. Parecia que ele estava aguardando que algo acontecesse e ele poderia então fazer a escolha de seus sonhos, trocar a clone pela original. E aconteceu, a clone botou um tremendo chifre nele com um amigo dele, que sabendo de detalhes demais sobre a clone achou varias brechas e não perdeu a oportunidade. O meu colega acabou sendo avisado e até levado por um grande amigo nosso, um senhor idôneo e de boas intenções, que o levou à cena do crime e ele vendo a clone nos malhos com o seu grande amigo preferiu não ver nada para não ficar sem a duas e casou-se com a clone. Poucos souberam dessa odisséia toda, mas o resultado é que ele aprisionou a clone num apartamento no centro de São Paulo, e tocou a vida com um casamento mediocre e uma paixão não correspondida por outra pessoa para quem mandava flores, bombons e bilhetinhos anonimamente depois de casado.
Fixações de todas as espécies passaram pela minha frente e eu mesmo volta e meia me via enrascado em alguma delas, eu também tinha a facilidade de me apaixonar pelas pessoas e pelas coisas. Mas depois de algum tempo, penso que num determinado momento, me toquei e mudei a regra do jogo, passei a usufruir do que era possível nas pessoas e nas oportunidades. Meio leviano segui flertando com as possibilidades e já não tendo aquele peso e aquele sofrimento próprios da adolecencia. Mas isso não aconteceu exatamente no final da adolescencia, aconteceu com algum retardo, não muito. Mas passei a identificar de forma mais clara os casos patológicos de fixação e posseção. E sempre que pude dei um toque. Mas algumas pessoas como no exemplo do primeiro caso se fecham às novas oportunidades de conhecer alguém e buscar uma felicidade alternativa. Ficam tão fixas na primeira opção que passam a perder todas as outras possibilidades, e mesmo estando diante de alguém melhor não conseguem ver este melhor. E assim ficam sofrendo o amor não correspondido e não correspondendo aos pretendentes.
Acontece também em relação a consumo e outras possibilidades onde transitam sentimentos.
O medo de não conseguir é tão grande que a pessoa concentra toda sua energia naquele objetivo e se fecha para todo o resto. Mesmo sendo o resto muito melhor que o objeto da paixão. A troca é burra.
Na verdade o erro é pensar que só porque a pessoa quer algo, tem direito a ele, e também pensar que tem alguma coisa, quando não tem nada na verdade, pois o desejo é algo abstrato e por mais investimento que se tenha feito no sentimento este sentimento nada mais é do que sonho e se evapora a todo momento. Sonhando então que esta acumulando um patrimônio sentimental e que isso um dia se materializará em um bem físico afetivo que enfim virá, a pessoa passa pela vida, se torna perdedora e um dia a ficha cai.
Todos os despresos e descuidos então se tornam claros e a pessoa se pergunta: - Como foi que eu não vi isso?
Frustração, ódio e porre, consigo, com o objeto do desejo e porre de vida mesmo.
Apaixone-se mas mantenha um pé do lado de fora, entregue-se 99%, deixe um por cento de lucidez para te prender a realidade e se necessário te resgatar da burrada completa, não deixe que ela seja completa, seja parcialmente burro apenas.
Soluções alternativas são menos condenáveis que desperdícios totais.
Minha colega resolveu investir num adultério para sentir o gosto daquilo que tanto queria.
Não saberemos se isso se realizou.
Meu colega resolveu investir numa farsa onde só ele era iludido para sentir não sei que gosto, mas me pareceu ser o gosto do ódio por ele mesmo.
Ambos buscaram alternativas estranhas aos invés de zerar e reiniciar como fazemos com o computador quando tudo parece estar dando errado.
Eu acho que o zerar fere mais, mas é muito mais apropriado quando visto no conjunto da história de uma pessoa.

2 comentários:

Mary Joe disse...

Vitorio, acho que há muita coisa a ser pensada aí... porque o amor platônico é extremamente difícil de ser vencido. Porque veja só: idealizações são perfeitas. Quem compete com isso? Com um amor idealizado sem nenhum desgaste ou tpm. Entaõ, essas pessoas como vc bem disse, perdem toda a noção de realidade.

Já conheci uma, que por ser impedida de casar com o homem amado (há décadas atrás, isso ainda acontecia), se casou com outro, mas teve esse amor guardado por mais de 30anos... e adulterios mil a parte. Nunca foi feliz com nenhum dos dois. Nunca esteve plenamente em relacionamento algum. Sempre parte estava com o outro.
Lastimável. Como é lastimável alguém casar pensando em outra pessoa.

Acho que seria mais simples e mais honesto se todos jogassem limpo nas relações.
Mas... ponderando refletidamente... sera´que todos dariam conta de tanta sinceridade?
Beijokas
Mary Joe

Arquimedes Pessoni disse...

Eu acho o ser humano muito compicado...bom seria se viesse com manual.