PENSANDO

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segunda-feira, 1 de março de 2010

CAMINHO SUAVE


Vi um documentário a algum tempo que falava sobre o ensino no Japão.
O diretor de uma escola determinava que os alunos fizessem um desenho livre numa folha tipo A4 ( sulfite ) e os desenhos eram identificados com o nome do aluno a turma e o ano de sua execução, não estou certo se no primeiro dia ou no ultimo dia de aula dele na escola.
Os desenhos foram sendo guardados em envelopes fechados por décadas.
Num determinado momento acharam por bem ver os desenhos, eles foram então desenvelopados e colocados lado a lado por ordem cronológica, ocuparam completamente a quadra de esportes da escola. Para o acontecimento todos os ex alunos foram convidados a voltar a escola e rever seus desenhos. Muitos voltaram e muitos não lembravam o que haviam desenhado. Mas havia uma lógica no conjunto, e a história do Japão estava contada na sequência dos desenhos realizados individualmente mas que guardavam grande harmonia entre si.
Épocas tranquilas eram repletas de desenhos de acontecimentos cotidianos, a Segunda Guerra estava descrita passo a passo, as bombas de Hiroshima e Nagasaky estavam la, a rendição e a reconstrução do Japão também.
Alguns alunos já eram idosos quando reviram seus desenhos e já não sabiam mais dizer porque havia desenhado aquilo, a razão de suas escolhas. Mas adoraram e se emocionaram com os vários reencontros que tiveram a oportunidade de fazer naquele dia.
Era uma ideia tão simples e de tão baixo custo de ser realizada que eu na ocasião comentei com a dona da escola onde minha filha estudava que seria muito legal fazermos o mesmo.
- Ah... é... é seria...
Ficou nisso. Faltou-lhe tudo, sensibilidade, grandeza, compromisso e amor.
Minha filha saiu de lá, tem vagas lembranças da escola, passou por outras e hoje estou louco pra tira-la da escola onde esta atualmente porque não gosto de lá e da equipe que a toca.
Uma escola não deveria ter grades, deveria ser proibido. Deveria ser um prédio cheio de janelas grandes no meio de um gramado. Quem ousasse algo contra a escola deveria ser preso por 100 anos. Deveria ser um lugar sagrado, e uma escola deveria ser como uma igreja, você apenas a deixa ficar velha mas nunca derruba uma.
O ensino é outro universo, deve-se modernizar e atualizar mas o conceito escola deveria ser o do sagrado, imutável, permanente. Deveríamos ter a certeza de sempre poder voltar ao prédio onde fizemos o curso primário e encontra-lo lá. Nossa passagem por ele deveria ser respeitada e deveríamos voltar lá a cada tempo pra cuidar do prédio e do jardim mesmo que nenhum filho da gente estivesse lá estudando, e se possível deixar nosso nome numa parede, onde todos os alunos deixariam também seus nomes escritos e ninguém tocaria neste outro sagrado.
Escrevo isso porque quando a Mary Joe disse que na cidade dela vão fechar uma escola que viu 50 anos da história de uma pequena localidade passar por seus corredores e agora ela não tem mais importância, fiquei pensando no quanto é pequena a alma de quem decide que deva ser assim. É no mínimo muita falta de imaginação e afeto fazer isso.
Imagino que se um dia o Grupo Escolar onde estudei for demolido, vou lá e queimo meu diploma no terreno vazio.
Quando vendemos a casa de minha avó senti esse peso de deixar que botassem no chão a casa onde estavam minhas lembranças da infância. Não poder voltar a um lugar importante é um perda irreparável.
Gostaria de saber o nome do diretor de escola japonês que teve a ideia de preservar os desenhos e com eles a alma daquela escola. Uma ideia tão simples e uma reverencia tão grande aos alunos

3 comentários:

Andréa disse...

Pois é Vitório, faltam pessoas como vc nas Escolas. Que idéia simples e rica este diretor teve. Fiquei aqui pensando se minha escola fosse demolida. Hoje passo lá apenas na época das Eleições pra votar, vou sempre à pé pra curtir o caminho que fazia, quando entro vem um monte de recordações, às vezes, encontro antigos amigos e funcionários. É muito bom se dar conta de todas estas sensações.

Gde abs

Andréa

Mary Joe disse...

Vitório, lindo o seu texto. Gostaria também de encontrar alguém com a sensibilidade desse diretor.

Sobre a escola, a mais antiga da cidade, onde minha sogra lecionou e o Alan estudou a vida toda, foi fechada há dois anos atrás. Lembro da minha sogra chorando, pois apesar de ser aposentada, tiraram anos da história de vida dela.


Agora sinto a mesma dor. E descobri através da Marinez, que é uma idéia federal. Será que o povo em Brasília naõ poderia além de roubar, nos deixar em paz?
Tsc Tsc tsc
Beijos queixosos
Mary Joe, a indignada com toda essa história da escola.

Arquimedes Pessoni disse...

O primo tá ficando saudosista e eu tb. Lembro do Otilio de Oliveira, onde estudei de 1973 a 1975...um gramado belo, cercas baixas e ninguém ousava pisar na grama ou riscar a parede que ia pra diretoria. O Aulo, diretor, tinha um bigodão e parecia muito bravo... Minha esposa deu aula lá, eu voto sempre lá nas eleições e tenho boas recordações quando estou dentro do prédio. Quando estou fora, gostaria que um tsunami varresse aquilo: tudo pichado, carros de professores estacionados no pouco que sobrou da grama e vidros quebrados...saudade quando havia educação, respeito, ordem. Se perguntar pra geração atual o que seria isso, creio que não saberiam explicar. Talvez porque não tenham abordado esse tema no BBB.