
Eu não queria ir, mas não havia opção, chegava minha idade de alistamento.
Foi aquela rotina de sempre, fila na madrugada, longa espera, burocracia e data para voltar e iniciar um
lotérico processo
seletivo.
Depois de voltas e esperas que levaram meses e testes e exames médicos
coletivos, um belo dia estamos em fila aleatória por ordem de chegada o
Robson, o Zé Carlos e eu. Havia uma mesinha onde um soldado carimbava a ficha da gente, e como todo mundo só contava mentiras e
pregava peças ninguém sabia se era verdade ou não que aquele
era o dia em que
saberíamos se
iríamos servir ao
Exercito ou não. O
Robson teve sua ficha carimbada e virou-se para nós fechando um dos olhos com um sorriso muito
amarelo no rosto, em seguida o Zé Carlos virou-se pálido para nós, depois eu ouvi o barulho do carimbo e a frase: Dia tal, 6 horas da manhã, aqui com o cabelo cortado e barba feita.
Estavamos dentro...
No principio
achávamos que era uma gelada. Voltamos
prá casa no Corcel amarelo do
Robson em profundo silêncio e sem saber o que seria de nós.
Marcamos o dia para cortar o cabelo juntos, escolhemos o barbeiro que cortava o meu cabelo no
quarteirão onde eu morava, 6 da tarde depois que todos
saímos do trabalho. Debaixo de urros e vaias eu fui o primeiro. No dia seguinte levantar 5 da manhã e as 6 horas mais perdidos que não sei o quê e apavorados pisamos pela primeira vez no quartel na condição de soldados do Exército Brasileiro. No dia seguinte recebemos o fardamento e os
coturnos. Na manhã seguinte
andavamos feito uns deformados com aquelas botinas enormes, duras e absurdamente pesadas.
Quem não deixou absolutamente brilhante o seu par já entrou pelo cano no primeiro dia. Era dureza, tinha que fazer a barba de madrugada porque se ela despontasse já dava encrenca.
Veio a primeira guarda, ou seja ficar no quartel vigiando não
sabiamos o que, eu e o
Robson em pleno Carnaval. Neste dia resolvemos arrepiar
queríamos mandar e muito. Nos inscrevemos no curso de Cabo. Ralamos, treinamos e dois meses depois
recebíamos nossas divisas em nossa primeira promoção. Eu com um honroso 2º lugar na prova escrita
atrás apenas do Cabo
Ogawa e em primeiro no comando de ordem unida ( comandar as tropas em marcha ). Na prova de armamento ( desmontar e montar uma arma e reconhecer cada peça ) tirei nota máxima mas achei que todo mundo foi bem também, só um aspirante foi reprovado e não foi promovido.
Mas a maior surpresa foi que eu seria em seguida promovido novamente, agora para xerife, ou seja, o cabo que colocava os cabos em ordem para apresenta-los ao comando. E mais, aos Sábados meu sargento não vinha ao quartel então eu recebia o comando da Segunda turma, 120 soldados,
diretamente do
Sub-Tenente, e antes das 3ª a 5ª turmas que era passadas para sargentos. Em seguida fui dispensado das guardas, ou seja eu não precisava mais dormir no quartel a cada
mês, e transferido para o serviço burocrático. Virei patrão. Conquistei a amizade de meu sargento, o maravilho
Mario Ribeiro 1º Sargento e um dos melhores amigos que já tive na vida, saiamos para beber, para ir em bailes, eu morria de rir das piadas e
micagens dele. Ele era muito engraçado e todos invejavam nossa turma por termos um homem assim nos instruindo, na verdade ele cursava Odontologia na
USP e não tinha muito tempo
prá gente.
Nossa turma era boa, a gente trabalhava
direitinho mas olhando de fora parecia uma zona.
O tempo passou rápido, peguei fama de ruim, mas no exercito ou você esta de um lado ou do outro, ou faz certo ou toma porrada. Integrei a equipe que foi campeã de tiro embora eu tenha
contribuído para piorar a média da equipe. Um Sábado fui chamado pelo
sub-tenente para assumir o comando do quartel porque ele ia sair para almoçar com os sargentos, eles
dobraram a esquina e um carro desgovernado invadiu o quartel indo parar no meio na quadra de futebol.
Tava armado o circo, não acreditei naquele azar. Foi um rolo, o motorista
tava muito nervoso achando que eu ia manda-lo
prá cadeia por ter feito aquilo, tivemos que chamar a polícia
prá fazer
BO e o cara jurou por Deus que ele mesmo ia reparar tudo. O cara
tava tão apavorado que ralou o
Domindo todo com os amigos e na Segunda
tava tudo
novinho em folha,
mureta,
alambrados e pinturas.
Rolou de alguns amigos serem expulsos por
indiciplina ou faltas ( um deles seria mandado para servir na
amazônia e se tornaria Dragão da
Independência e faria a Guarda
pessoal do General que era o Presidente da República), eu fazendo muitas amizades, meus patrões prometendo me demitir no dia quer eu desse baixa e o tempo correndo como louco.
Provas finais, marcha de 20 e tantos
quilometros, um dos momentos mais gostoso de minha vida, e enfim a festa de despedida. Parentes,
lágrimas, muita, mas muita tristeza e duas surpresas: Um consagrador diploma de melhor Cabo e
continência em posição de sentido e aplauso dos quase 450 colegas e mais outros 1000 e tantos convidados incluindo o prefeito da cidade e um convite para continuar trabalhando no quartel a serviço do Exército como civil contratado pela prefeitura, vaga que agradeci mas recusei.
No inicio morri de medo de entrar, não me achava capaz, fiz tudo
certinho e sai com o numero 1.
No dia seguinte perdi meu emprego que eu gostava tanto e onde estava já a 7 anos, ironia ter reciusado um emprego no dia anterior, mas o salário era muito baixo mas consegui um de vendedor de
cine-foto-som que foi um dos períodos
profissionais mais deliciosos de minha vida.
Poucos anos depois o Sargento
Mario Ribeiro morreu em um acidente aéreo no Mato Grosso.
20 anos depois tentamos nos reencontrar mas não tivemos sucesso. Hoje faço parte apenas da comunidade do Quartel no Orkut, mas é tudo muito disperso.
Servi durante o regime militar, na época o Coronel Erasmo Dias saiu as ruas em perseguição aos estudantes da
PUC e
achavamos que ia dar merda, não deu. Conheci dentro do exército uma
família totalmente
afetuosa e
respeitosa, onde todos eram tratados com rigor e dignidade, onde os de bem eram contemplados e os malandros punidos. Não havia sargento bobo e eu nunca vi ou ouvi dizer de nenhuma injustiça. O filho do
vice prefeito era meu subordinado e ninguém lá sabia quem era rico ou pobre, todos
eramos iguais, absolutamente, havia um senso de justiça profunda. Foi a minha passagem de adolescente para homem. Devo isso a eles.
Por 5 anos voltei, não ao quartel mas à junta para carimbar a reservista e lamentava estar fora daquilo. Como lamentei também não ter comprado minha farda para guarda-la.