PENSANDO

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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

INFERNAIS

Quando morei em Paraty, conheci um casal que era o retrato mais bem acabado que já vi até hoje de cumplicidade dentro do casamento e dos negócios. Não eram exatamente do bem, nem eram do mal, pendiam para um dos lados folgadamente e isso era considerado na pequena comunidade que é a cidade um coisa muito grave. Em lugares pequenos não existem segredos, mas existe muita inveja e ampliação exagerada dos fatos. Mas na balança, lidar com eles era muito difícil porque ficavam o tempo todo levantando a bola um do outro, fazendo retaguarda e jogando pesado com todo mundo. Extremamente cultos, viajados e experientes da vida tinham um casamento aberto, alias abertissimo como eu nunca havia visto em minha vida, no inicio de modo sutil depois de forma bem explicita e leviana para os que se aproximavam deles.
Isso gerava um série de obstruções aos planos deles e fazia a delicia das rodas de fofocas da cidade. Mas eles tinham uma certa forma de poder originário do trabalho que faziam de onde obtinham sucesso internacional com um trabalho constantemente requerido e muito bem pago.
Tinham portanto a arrogância dos artistas bem sucedidos e um ar de desprezo por tudo que não fosse nascido de suas imaginações e lidas.
Não era fácil lidar com eles, mas no entanto ofereciam grandes exemplos positivos de profissionalismo e cumplicidade plena.
Lembro de uma vez estarmos buscando um nome para um negócio e dei um sugestão, e eles disseram: - Legal... ; daí deixaram a coisa ficar morna, a conversa prossegui e lá na frente voltaram ao nome que eu havia sugerido mas só que desta vez, segundo cinicamente me colocaram, nascida da cabeça da esposa dele. Fiquei indignado com a mesquinharia e não entendi naquele momento a natureza daquilo, o que ganhavam com tudo se o nome eu estaria dando de graça, mas eles queriam mais, queriam que alem de ser um bom nome, ninguém nunca viesse dizer que a ideia não tinha sido deles. Doentes, muito próximos da doença. Meu encanto foi morrendo, e mesmo o bom lado criativo e profissional deles, em grande parte herdado das incontáveis viagens pela Europa e EUA, deixou de me seduzir.
Eles batiam e assopravam no pior estilo de convivência que se pode estabelecer.
Eu tinha planos interessantes que podiam ser desenvolvidos pelo grupo que poderiamos formar, mas havia que se ter uma abdicação total de autoria, nada podia ser criado fora da cabeça deles, eles simplesmente não suportavam compartilhar nenhuma migalha de eventual sucesso. Assim depois de uma parceria onde desempenhei brilhantemente meu trabalho, numa época que não era comum eu conseguir isso, a coisa explodiu e eles conheceram o meu lado mais perverso que eles não imaginavam que eu possuía, e com uma guerra silenciosa e cruel eu terminei minha relação de trabalho e talvez, se é que existiu, de amizade com eles.
Seguiram e estão ainda hoje se dando bem, sempre embarcando na corrente mais proveitosa de tudo que acontece. Eu por meu lado descobri uma coisa que considero interessante dentro daquele conjunto meio selvagem, que um casal unido é imbatível.
Nada pode impedir o avanço e a subida de pessoas que se unem num objetivo, mesmo que de forma doentia.
Os arranca rabos entre eles eram violentos nas poucas vezes que eu presenciei, ela era submissa quando isso acontecia, mas ardilosa para dar a volta e fazê-lo sofrer por isso. Mas eles nunca rompiam o acordo básico da união deles contra o resto do universo. E isso foi gerado e fortificado na necessidade simples de ter que sobreviver no final dos anos 60 e inicio dos anos 70 da atividade artística. Neste meio foi que se criou a essência do que eram e de como se comportavam. Uma atividade marginal, informal, desrespeitada e que raramente era valorizada. A alma deles endureceu, e eles sobreviveram e acharam o caminho do progresso e com a formula testada e aprovada eles nela se acastelaram e perderam a sensibilidade para perceber que o mundo era maior que eles, que as coisas poderiam acontecer sem a participação deles e que eles poderiam ser ótimos, como eram, ao lado de outros também ótimos, sem que com isso fosse preciso que deixassem de existir.
Aprendi a lição mas nunca encontrei a cúmplice para aplica-la.
Por estes dias avistei-os na internet entre matérias, sites e outras tantas possibilidades e lamentei honestamente não te-los como amigos hoje, porque fora o comportamental urticante, tinham muito a oferecer e receber se aceitassem.

2 comentários:

Arquimedes Pessoni disse...

Digamos que tenha sido uma parceria Caracú entre vocês, certo? Só faltou contar como deu o troco...

Andréa disse...

Faltou contar as fofocas picantes do casal!!!! hahahaha