PENSANDO

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sábado, 9 de janeiro de 2010

PODE MAIS QUEM TEM MENOS A PERDER.

Se você não conhece escritos anarquistas ou se arrepia só de pensar que sejam como um arrastão destruindo tudo que encontra pela frente, saiba que o meu texto a seguir é puro anarquismo.
A história é real e soube dela ontem por telefone sem fio. Vou contar com alguns pontos de pura dedução, mas vale a essência que é muito boa.
A história:
Meu amigo Paulão estava a semana passada em Mendonza na Argentina com sua namora Any num restaurante aguardando o prato que pediram, quando a garçon serviu o prato um individuo entrou no restaurante com uma sacola pegou a travessa com a comida e despejou dentro da sacola, pegou o saleiro jogou sal dentro da sacola por cima da comida e saiu do restaurante.
O Anarquismo.
O cara tava certo. A vida é curta demais pra gente passar vontade, quanto mais para passar fome. Se o cara entra no restaurante se apodera da comida e ninguém o detem é porque todos os que observaram julgaram ou que não valia a pena o risco de uma eventual luta ou acharam justa a atitude do individuo. Se não quiseram correr o risco é porque tinham mais a perder na vida do que o valor de um prato de comida para duas pessoas, melhor pedir outro ou pagar por outro que levar uma facada e morrer por tão pouco. Se julgaram justo o cara levar a comida é porque sabemos que o mundo tá mesmo injusto e que as vezes a partilha é feita de formas abruptas, escandalosas ou patéticas como foi o caso.
Mas o cara podia trabalhar e obter recursos para sentar-se decentemente à mesa sem ter que se apropriar da comida e sim pagar por ela. Mas alguém sabe como foi a vida do cara, você quantas vezes já foi injustiçado na vida trabalhando honestamente? Quantas vezes a inveja o derrotou?
Quem garante que o cara não trabalhou?
É próprio julgar apenas pelo ato sem levar em consideração o passado. Isso é a sociedade em que vivemos, onde as leis são circunstanciais, valem apenas focadas para o fato em si sem por na balança o quanto de porrada o cara levou na vida para chegar a apoderar-se daquilo que ela julga então ser direito seu. Qualificam o ato e ignoram a trajetória.
Mas alguns vem ao mundo sem competência para vencer. Terão eles menos direito ao prazer, serão parte integrante apenas da massa destinada a ser eternamente explorada?
Claro que não, estes são os perigosos, os que não tem nada a perder, porque estes podem mais.
Você que venceu algumas etapas e pode pagar por algumas formas de prazer sabe que não foi fácil chegar até aqui, então imagine aquele que também lutou e só teve coisas desfavoráveis e não consegue obter o êxito. Esta sempre em débito, esta sempre ouvindo a promessa do futuro.
Um dia o cara cansa e diz: - Eu quero agora. Vai entra no restaurante se apodera da comida e se for pego e preso ganha casa e comida de graça por algum tempo, não talvez o tempo justo e não talvez a comida de melhor qualidade. Por que o tempo pode ser injusto? Porque a sociedade coloca na cadeia uma pessoa que rouba um prato de comida por um tempo muito superior ao que se ela trabalhasse precisaria para arrecadar o dinheiro necessário parar compra-lo. E por contradição na cadeia recebe de graça a comida em volume muito maior que o equivalente ao roubo.
E todos são roubados pelo governo para que ele pague a comida do prisioneiro, que no entanto não vai preso por isso. Confuso? Não anárquico, deliciosamente anárquico.
Eu vejo no dia a dia pessoas passando vontade, e não entendo porque as pessoas não vão lá simplesmente e não se apoderam daquilo que desejam. Não há cadeia para todos, não existe policia suficiente para prender a todos, e os policiais também roubam.
As sociedades nunca se tornarão justas porque o ser humano é originalmente defeituoso moralmente. Alguns núcleos e segmentos no entanto podem se tornar melhores. Mas a massa tem mais poder destrutivo que construtivo e isso nunca se manifesta, são tão raros os eventos ocorridos na história da humanidade que qualquer anarquista desanima só de pensar.
Por fim.
A conta não foi cobrada do Paulão e estou louco pra ouvir a história pessoalmente.

4 comentários:

Anônimo disse...

Eu sou o Paulão.
Tinha acabado de dizer à Ani " Putz, isso aqui parece o Quartier Latin dos anos 30, 40, 50, que muitos só imaginam em filmes como a Louca de Chaillot "
Parecia mesmo, calçadas enormes sem veículos, bistrôs de todo tipo, aquelas mesinhas de fora...
A Argentina tem muito da França pra quem não conhece os dois países. A Argentina tem mais árvores nas áreas urbanas, mais parques que qualquer país do mundo.
A Argentina não teve escravidão, e a sorte de não lidar com essa monstruosidade durante e depois da abolição, mas teve o azar de ter um Perón e o seu justicialismo de fachada e todos os que vieram depois, militares e não militares, com exceção de um único, Afonsin, que não conseguiu terminar seu mandato.
E o país que não tinha analfabetos, hoje tem muitos; que não tinha favelas, hoje tem também.
A Argentina copiou o Brasil. A Cristina copiou o Lula com a criação de um seguro desemprego com base no número de filhos, e ninguém mais vai tirar isso, nem deles, nem de nós.

Quando o indivíduo entrou no restaurante e encostou na minha mesa, ele que nem era um mendigo, nem alguém como eu, e abriu a bolsa e foi pondo a comida com a mão... sem nada pedir, sem nada falar, pensei na hora
"esse cara rompeu a barreira de qualquer moral conhecida. Não pediu, não disse que tinha criança com fome ou mesmo ele ..."

Calado foi se apropriando da minha comida até limpar o prato, e ainda pegou o saleiro e jogou o sal na bolsa aberta antes de sair. A Ani ficou chocada, eu não, até disse pra ele levar o resto que tinha deixado, e pra Ani falei " nós vivemos num mundo miserável, somos turistas, temos dinheiro pra comer, viajar... isso faz parte, não se pode evitar... "

E creio, que apesar da cena insólita, que só vi algo parecido no filme Os Idiotas do grupo dinamarquês DOGMA, creio que cenas assim vão se repetir aqui e ali, porque os homens que podem mudar alguma coisa não tem caráter e não merecem a Terra que herdaram não-sei-de-quem; os que têm caráter e algum recurso não têm estômago. Como disse um amigo de infância " Creioo que Darwin cometeu um engano, dado o grau de desenvolvimento dos símios e dos humanos é mais provável que eles descendem de nós.."

Creuza disse...

este episódio vivido por seu amigo lembrou-me de um livro que li chamado a hora dos ruminantes,as vezes acontece determinadas coisas tão diferentes dos nossos hábitos,daquilo que é esperado,do que já esta plenamente estabelecido que não reagimos, só aceitamos e mts vezes até concordamos com o acontecido ...neste livro uma pacata cidadezinha é invadida por pessoas estranhas,com comportamentos estranhos e aos poucos esta pessoas vão subjugando os moradores , mesmo estes não aceitando,acabam incorporando a maneira de ser daqueles estranhos...no caso descrito por seu amigo,não pode-se considerar normal uma atitude desta , mais foi totalmente aceita como algo inusitado,como uma forma diferente de sobrevivencia, porém ,analisando corretamente trata-se de um caso explicito de desiquibrio comportamental.

bjsss

Arquimedes Pessoni disse...

Talvez o cara fosse do MST e estivesse passeando pela terra de los hermanos...pegar o que tem dono é complicado, se a moda pega, todos viraremos políticos e vamos querer morar em Brasília...desculpe o conservadorismo (ou o pensamento de direita), mas se não seguirmos algumas regras mínimas de convivência, amanhã estaremos usando tacapes novamente.

Vitorio disse...

Queridos amigos e primos.
Bato de frente com todos vcs.
O direito de propriedade é algo muito relativo, e um dia iremos ampliar o entendimento sobre isso.
Não é culpa de ninguém se uma pessoa trabalha demais e conseguir angariar mais do que precisa parar viver.Voltarei ao tema.
Abçs.