PENSANDO

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quinta-feira, 9 de julho de 2009

O OVO E O CHORO

Esta noite não dormi por conta de um e-mail que li por volta das 23:30 horas.
Ele me fez lembrar algo que aconteceu de fato e me ligou ao presente de forma cruel.
Minha mãe tinha uma única galinha, essa galinha era minúscula, mesmo eu em minha ingenuidade dos 8 ou 9 anos percebi que se tratava de uma criatura inferior. Mas era a única que tínhamos. Um dia ela botou o seu primeiro ovo. E peguei o ovo e explodi de alegria, aquilo era o máximo. Minha avó chegou para mim e disse em voz baixa e com muito jeitinho: - Esse ovo é meu, porque sua mãe me vendeu a galinha. E eu tive que entregar o ovo.
Dei as costas sem graça e perdi o rebolado por não saber que minha mãe estava num estado de penúria tão grande que havia vendido aquela galinha esqualida. Andei até minha casa, acreditem, fiz hoje um esboço para calcular qual fora o tamanho de minha caminhada com base em minas remotas lembranças da localização do galinheiro e do sofá da sala onde fui parar, deu 8 metros.
Pareceu 80 kms na ocasião. Sentei encolhido no sofá e chorei pela perda do ovo, pela perda do direito de colher os próximos ovos, pela perda da alegria, pela perda do carinho e generosidade de minha avó, por saber que éramos miseravelmente pobres que nem uma galinha fracassada conseguíamos manter e finalmente chorei por saber que estava sozinho chorando e ninguém notou minha tristeza. Não lembro de mais nada da ocasião sobre esse fato. Ele se apagou de minha mente.
Tem uma musica que diz:
Sofri imensamente para chegar até aqui
Atravessei um enorme temporal com muita luta
As lágrimas que chorei as gotas da chuva lavaram
Estou aqui e ninguém nota o quanto sofri.
Ontem chorei novamente lembrando isso. E me perguntando:
Será que minha filha chora e sofre sem que eu perceba?

2 comentários:

Mary Joe disse...

Vitorio, gostaria de ter conhecido o menininho Vitório, para que eu pudesse sentar do lado dele e chorar junto. Ou pelo menos ficar em silencio junto.

Sabe, acho que quando os problemas dos adultos são tão grandes que os envolvem eles parecem "não enxergar" o vasto mundo infantil que a gente vive.
Lembro de mim, chorando pequenininha com medo de passar fome (e isso nunca aconteceu) mas ninguém nem percebia que algo me preocupava.
Hoje, procuro "enxergar" minhas meninas para saber se posso ajudar. Mesmo que apenas sentando em silencio junto.

Tenho certeza que sua filha deve ter o mesmo privilégio que as minhas. Vc certamente é um pai que enxerga.
Beijokas
Mary

Prof. Arquimedes Pessoni disse...

Comovente a história da galinha. Estranho como galinha e avó são coisas que se atraem. Lembro da minha galinha Xinbica, que tratavamos como uma da família. A coitada tb não se salvou da degola com o sangue a escorrer, pendurada no galho da árvore o quintal da Maria Pillon. O que não se apaga da memória é lembrar da nonna abrindo a barriga da bichinha e achando lá dentro um ovo, com duas gemas. Se eu comi? Sem chance. Não ingiro nada a que dou nome. Esse povo não tem coração???