PENSANDO

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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

NÃO ENTENDEU PORRA NENHUMA

Eu tinha uns 9 anos quando um caminhão enorme passou por cima de mim e me matou.
Meu pai estava tomando umas num bar a poucos metros, era umas 6 da tarde e alguém falou pra ele: - Zé foi o seu!
Ele perdeu a cor e ficou mudo, literalmente perdeu a voz por algum tempo.
Eu havia saído de perto da companhia dele e ele não teve dúvidas de que era de mim que falavam e não de meu irmão.

12 ou 13 anos antes uma cadela que trabalhava no circo teve uma cria.
Meu pai tinha um tio que era gerente do circo, chamava-se Tio Melo a esposa dele Lili.
Meu pai casou com minha mãe e ganhou um filhote da cadela artista de presente de casamento.
O presente foi batizado de Bob.

12 ou 13 anos depois Bob me segui até o bar e na volta foi esmagado pelo caminhão.
Meu pai quando entrou em casa e me viu vivo foi para o quarto e deitou na cama pálido, fez uns gestos que ninguém entendia e todos, que não sabíamos o que estava acontecendo, hoje eu acharia que ele estaria enfartando, ficamos muito assustados.

Primeira ideia de minha mãe: - Chama o padre Fiorente pra benzer ele... ( sem comentários ).
Meu pai pediu um papel e uma caneta.
Pediu como?
Sei lá, não lembro, só sei que pegaram um caderno brochura de capa verde - vejam só eu lembro do caderno perfeitamente - e escreveu: Chamem meu pai.
Observação numero 1 - Meu pai um homem de uns 30 anos chamando pelo pai dele numa hora de desespero, aquilo me chocou, eu julgava meu pai um pessoa mais solida, capaz e corajosa, mas não era, toda a sua fraqueza estava ali demonstrada.
Observação numero 2 - Na verdade meu pai sabia ler e escrever muito mal, a caligrafia dele era péssima em estado normal, logo, nervoso como ele estava ninguém entendeu patavinas dos garranchos. Consequentemente não chamamos pai nenhum.

Meu pai e minha mãe entendiam tudo errado sempre, eram incultos e muito ingênuos.
Era uma pataquada atrás da outra.
Resumindo: Não morri, alguém enterrou o Bob em algum lugar próximo ali de casa, quem apareceu lá em casa foi um tio meu e não meu avô e também não resolveu nada, ninguém jantou, o padre não foi chamado e a história só tem mais um detalhe.

Na manhã seguinte quando meu pai acordou ele estava apavorado ainda com a ideia de não mais conseguir falar. Ele precisava falar alguma coisa para testar o canal e ver se tinha recuperado a voz. Mas o medo de tentar era tão grande que ele continuou mudo por mais alguns momentos.
Quando minha mãe também acordou, e preocupada foi logo perguntando se ele estava bem, ele respondeu normalmente.
Nunca esqueci este ocorrido. E hoje escrevendo esta história aqui e refletindo sobre os detalhes que uma história sempre guarda afirmo que meu pai ao me ver vivo não correu me abraçar. Ele não fez isso nem na hora, nem depois, nem em momento algum. Penso que ele pensou só na perda dele e não em minha eventual perda. Se consumado o fato ele perdia um filho caçula mas eu perdia a vida aos 9 anos. Ele limitou-se a cuidar de seu sofrimento físico-emocional do momento e não valorizou o filho que ainda tinha, convenhamos, uma tremenda gafe. Fui o centro da história num dado momento e o mais pequeno coadjuvante no correr da história.
Nem tive tempo de sentir a morte de meu cachorro no meio daquele rolo todo.

6 comentários:

Creuzita disse...

Primito!!vc sabe mesmo contar um bom causo!!!!rsrsrs causo mesmo,como diriam nossos pais...quero lembrar-lo que eles foram de uma geração das dificuldades...dificuldades na sua totalidade,difilculdades de estudar,de trabalhar,de alimentar e principalmente de expressar amor, carinho,somos de uma geração que não tivemos muito colo,beijos e palavras ternas,talvez a reação emudecida foi a forma de expressar que jamais voltaria a falar que fosse vc ao invés do cachorro,uma forama de emoçãoa contida,não importa agora, nossos pais apesar de tds as dificuldades conseguiram algo mt importante , , nos passar integridade,
para sermos o que somos hoje!!!detalh!!!!sem psicologia nenhuma ,então primo,viva a geração inculta dos nossos pais.
bjtooosss

larissa.pessoni disse...

leia sem os erros de digitação!!! rsrs bjsss
Creuza

creuza disse...

novamente!!!não entendi ...saiu o nome da Lari..opsssserá que aprendo um diaaaa????
bjss

Andréa disse...

Achei muito dura a crítica que vc fez ao sentimento do seu pai. Concordo com a Creuza, nossos pais tiveram uma educação diferente e outra cada um tem um jeito de sentir e agir. Confesso que fiquei impressionada como seu pai reagiu. Eu demonstro muito mais meus sentimentos (meu pai era e é assim) com as minhas filhas, do que a minha mãe demonstrava comigo, mas em alguns momentos me vejo tomando atitudes que ela tomava. Existe uma influência muito significativa do meio, da criação.
Talvez seja bom vc rever isso...

Abracx

Arquimedes Pessoni disse...

Lembro muito pouco de seu pai, aliás, só uma imagem dele na janela da cozinha, em 1969 (eu tinha 3 anos...). Sempre sisudo...creio que o silêncio dele foi algo do tipo "fodeu...eu bebendo e o moleque quase sedo atropelado". Uns aprendem pelo amor, outros pela dor. Nesse caso, parece que doeu fundo nele, apesar de sua perda canina tb ter doído...

Mary Joe disse...

Lamento pelo seu cachorro. E lamento pela incapacidade de vc e seu pai darem um ao outro o que precisavam naquele momento.
Tente se colocar no lugar dele, e talvez fique mais fácil entender como ele era ou pensava.

Infelizmente tendemos a pensar em nossos pais como mais sábios ou maiores do que efetivamente eram.

Hoje tenho tantas dúvidas ao criar minhas pequenas, que penso nem passar essa imagem de onipotência maternal. Mas vai saber, né?
Um beijo carinhoso
Mary Joe