PENSANDO

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sábado, 6 de fevereiro de 2010

PERSEVERAR.

Perseverar é seguir um objetivo com firmeza.
Sendo uma pessoa de princípios fortes e que não se deixa abater e nem se importa com a relação de tempo necessário para atingir aquilo que pretende, fatalmente chega ao objetivo.
Mas chega ao objetivo inicial ou chega a um objetivo?
Acho que chega a um objetivo. Veja então: o propósito tem uma forma bastante definida na cabeça da pessoa, ela tem um desejo muito forte e não se deixa afetar por outras opções que vão surgindo ou simplesmente não as enxerga, não se abate com os contratempos e quando eles acontecem os contorna e segue, e de forma muito comum perde a noção do tempo em que esta envolvida com o propósito, torna-se meio obtusa mas acaba chegando a algo; vamos agora ao algo, que algo? Algo diferente daquilo que queria ou que acreditava ser o propósito. Não há como ser perseverante e conseguir exatamente o que se quer. A flexibilidade não existe no dicionário do perseverante e isso faz o desvio acontecer sem que ele perceba.
Um exemplo: Uma amiga minha a Rosa ( os nomes não são os verdadeiros porque eu posso estar julgando algo que pode não ter acontecido exatamente como eu imagino que aconteceu ) gostava de um cara que se chamava Renato. Eles se encontravam num clube para dançar todas as semanas. Ele já separado era um ótimo dançarino e era um cara muito disputado. Rosa foi se apaixonando e acreditando que um dia o Renato seria dela. O Renato estava no auge e não queria nenhum compromisso com ninguém, queria todas e queria sentir-se desejado. Rosa era perseverante e jurou que Renato seria dela. E eles dançavam todas as semanas e ela chorava todos os dias seguintes aos bailes porque não encontrava uma forma de conquista-lo e tê-lo só para ela, mas não desistia, não perdia nenhum baile e eu me enchi o saco da história e os perdi de vista.
Muitos anos depois, bota uns 25 anos nisso, e eu sou reencontrado pela Rosa na Internet, trocamos mensagens e Tchãn! Tchãn! Tchãn! Tchãããããããñ! Rosa e Renato estão casados.
Depois sabendo que ela estaria em São Paulo, liguei para ela e conversei por horas com ela.
Ela havia vencido, mas o Renato... não era mais o mesmo. Era um traste, um peso na vida dela.
Ele já não dançava, estava na miséria e dependia do trabalho dela para sobreviver.
Ele chegou a algo com sua perseverança, mas não ao algo que queria. Sua visão focada no objetivo não a deixou ver que: 1) Renato não era um homem para se casar com ela, uma mulher que trabalhava duramente e não parava a não ser ao ver a tarefa cumprida e bem cumprida, já Renato era um boêmio que só gostava de dançar e ser admirado pelas mulheres. Não é tão óbvio? Mas não é óbvio para os sentidos cegos de uma pessoa muito dominada pela paixão e pelo desejo de conseguir. 2) Existiam outras pessoas e outras coisas a serem conquistadas, algumas até muito mais fáceis e Rosa não as viu, não notou porque a cegueira era grande, deixou passar batidas as pessoas mais parecidas com ela porque buscava o algo muito diferente. Com os alvos que tinham mais afinidade com ela teria conseguido formular planos em comum mais possíveis de serem alcançados. 3) Empolgada pela imagem inicial de troféu a ser conquistado ela não percebeu um monte de caracteristicas básicas de Renato e seguiu um objetivo que parecia ser o ideal mas que ela mesma tratou de pintar com as cores que mais gostava e não acreditou que ele não tinha aquelas cores de verdade. Nadou na praia da vaidade de que ela teria aquilo que todas queriam e seria invejada por isso, não foi, acho até que riram dela quando ele se escorou nela. 4) Perseverou e não consegui o objeto do desejo, conseguiu algo que agora sabemos não era o objeto do desejo. Restou a ela então a certeza de ter lutado por muitos anos ( isso mesmo, ela levou anos pára conseguir ) mas não teve o que queria, embora possa parecer que sim.
Perseverar é tão somente lutar, dedicar-se com firmeza e não quer dizer que isso seja melhor do que mudar de objetivo e nada conseguir. Mudar de objetivos pode parecer uma atitude bastante volúvel, mas na verdade pode ser também uma forma de adaptar-se mais aos contratempos e com isso conseguir um algo até mais interessante e satisfatório.
Conheci muita gente focada e eu sempre fui o que atirava para todos os lados.
Nunca me entendi direito com pessoas muito perseverantes, sempre gostei de novidades e em alguns momentos reconheço que me fixei em coisas ou pessoas que me prenderam por muito tempo e me fizeram deixar de ver outras possibilidades.
O perseverante acredita em coisas definitivas, eu acredito em coisas que agradem no momento.
Nunca fui perseverante, sempre desisti na metade, me arrependo disso é claro, mas acho que também me arrependeria se chegasse ao final.

2 comentários:

Arquimedes Pessoni disse...

Já te disse, vc pensa a curto prazo, traço de pisciano. Se a coisa demorar demais, deixa pra lá...lembra de suas infinitas reformas da sala, banheiro, aquele mezanino que nunca acabou? Pois é...alguns perseveram eternamente - outros, o eternamente termina rapidinho...

Mary Joe disse...

Ops, Arqui, pisciano? Eu também sou pisciana, e me identifiquei com a Rosa, perseverante... rsrsrs

Brincadeirinha a parte, Vitorio, acho que nem tanto ao mar, nem tanto a Terra. Confesso a vc que já tive vontade muitas vezes de jogar para o alto as coisas pela metade. Só consegui terminar meu mestrado, por exemplo, por causa do meu noivo na época, o Alan, que me repetia insistentemente que eu iria me arrepender se abandonasse.
Ele tinha razão, eu me arrependeria mesmo...

Nem por isso, no entanto, levei a carreira academica adiante. Entaõ, mudei o objetivo final.

Acho que o grande lance é vc perceber o momento de perseverar, e o momento de mudar de objetivo.
Há tempo para as duas coisas na vida, naõ é mesmo?

Estava com saudades daqui... a vida naõ andava me deixando com condição de parar e ler seus ótimos textos.
Beijokas
Mary